Entrevista com Fábio Porchat do Porta dos Fundos

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Em breve lançaremos o White Paper, um documento que fala sobre o Brasil Digital. Entre os formadores de opinião que estamos conversando, gostaríamos de compartilhar com vocês a entrevista com o Fábio Porchat que faz parte do grande viral da internet Porta dos Fundos.

The Listening Agency: Por que trabalhar com o humor ficou tão perigoso no Brasil? Por exemplo, dá processos, indenização e polêmica. O que está errado é o ofício dos humoristas que a vocação é fazer rir ou a cultura do politicamente correto que tenta higienizar o deboche e a ironia de todas as partes, inclusive dos programas humorísticos?

Porchat: Na verdade vou discordar pouco da sua pergunta, eu não acho que está perigoso fazer humor no Brasil. Tem três exemplos de comediantes que deram problema e cem exemplos de comediantes que não deram, eu por exemplo nunca tive problema, nem o Leandro Hassum e muito menos o Lúcio Mauro Filho. Na verdade a gente pega uma ou duas pessoas que polemizaram com o assunto e que deram algum problema. Às vezes por conta delas ou por não, acabamos generalizando por esse lado porque é mais legal pegar uma coisa que gera uma polêmica do que dizer que estar tudo normal. Então fazer piada no Brasil é fácil no sentido de que é um povo pré-disposto a rir, é um povo que adora rir, adora brincar e que é um povo muito piadista. Tem um politicamente correto acontecendo mas por conta de estarmos vivendo um momento tão bom de aceitação, de evitar preconceitos, racismos e homofobia do que qualquer outra coisa.  Acredito que é por conta de nós não sabermos lidar com a situação. Tenho a teoria de que quando o bobo da corte faz a piada ele está rindo da cara do rei e todo mundo está rindo junto, inclusive o rei. Quando o rei manda matar o bobo da corte a culpa não é do rei, o rei é um borsal. A culpa é do bobo da corte que errou e fez o rei perceber que aquilo era uma piada. Os humoristas tem que saber fazer a piada, rir do outro, rir de si e fazer todo mundo rir junto. Se eu tivesse que escolher alguém para representar o humor no Brasil, eu não escolheria nenhum desses polêmicos... Eu com certeza escolheria o Adnet, o Hassum, o Gregorio Duvivier, o Marcos Veras, o Médici que são pessoas ótimas, hilárias e que nunca deram problema.

TLA: Você discorda do que o José Simão disse que o Brasil é o país da piada pronta?

Porchat: Não. O Brasil é o país da piada pronta por uma série de outros motivos por conta dos políticos, das placas que a gente vê pelo Brasil e do brasileiro ser bem humorado, acho que é por conta disso. O Brasil é o país da piada pronta com certeza, quando você tem Feliciano no cargo dos direitos humanos e o Genuíno no cargo da justiça. Mas não é só no Brasil não, é no mundo todo. Também tem um pouco isso... "Ah no Brasil é difícil fazer piada". Lá fora também é a mesma coisa, durante aquele tsunami no Japão um comediante americano super famoso fez uma piada e perdeu o contrato que ele tinha com a Volkswagen. 

TLA: Como você imagina que esse tipo de humor – o que você faz e os outros comediantes que você citou aqui no Brasil também fazem– são vistos lá fora? É claro que por exemplo em Londres, os londrinos não entendam o mesmo tipo de piada até pela cultura ser diferente. Mas como você acha que é visto este tipo de humor lá fora?

Porchat: Eu acho que as pessoas lá fora nem olham para o Brasil com esses olhos de humor, nem sabem que está acontecendo algo desse gênero aqui no Brasil. É mais nós nos inspirarmos no que está acontecendo lá fora. O que eu tenho sentido muito com o Porta Dos Fundos é que os portugueses estão dando uma resposta muito legal ao nosso site. Nós estamos em canal português e eu já dei entrevistas para jornais portugueses. É um 'lá fora' olhando para o Brasil, só que Portugal é um país irmão (não sei se isso de país irmão existe – mas é uma língua semelhante que facilita muito). O português é uma língua que está “condenada” a dois países e é claro que embora Angola e Moçambique falem português também, os principais são Brasil e Portugal. O restante do mundo está falando inglês ou espanhol e por conta disso acho que o pessoal lá fora não olha para o Brasil com essa coisa de humor ou comédia e nem se inspiram aqui. Talvez é até uma boa pergunta para fazer com o pessoal lá.

TLA: Você analisa essa reversão lógica do marketing que vocês instituíram no Porta Dos Fundos?

Porchat: Isso foi uma coisa muito engraçada! Quando fizemos o primeiro vídeo do Spoleto, falamos: “Bom seja o que Deus quiser!”  Não mencionamos o nome do Spoleto e nem gravamos dentro do Spoleto, então pensamos que não tinha como dar problema porque não estávamos usando a marca deles. Eles é que foram muito inteligentes e souberam usar, abrindo as portas para outras empresas perceberem que o legal é exatamente isso. É discaretar, porque a TV já é muito careta, os merchandisings da televisão são muito caretas. A internet é outra mídia completamente diferente e que temos total liberdade. Por que não ter também essa liberdade com as empresas? Elas podem criar e brincar com isso. Acho que o Spoleto percebeu muito claramente e se utilizou muito bem disso, virou um case de marketing do ano. O case de história de marca da internet no Brasil, não sou quem está dizendo isso... Saiu na Exame, na Negócios e em outras revistas. Eles acabaram contratando a gente e fizeram com que o vídeo se chamasse Spoleto e nos solicitaram para fazer mais dois vídeos. À partir do Spoleto várias empresas começaram a usar este recurso à favor delas, como a Coca-Cola, a Fiat, o Bis que lançou um vídeo e a Kuat que irá lançar agora. Então as empresas foram sacando que o legal é se sacanear mesmo, é rir da gente mesmo.

TLA: Qual é a relação com as empresas que você critica? Porque você já chegou a fazer críticas no Porta Dos Fundos sobre outras empresas, como é isto? Alguém já chegou a ligar ou reclamar com vocês?

Porchat: Na verdade eu só crítico aquilo que eu uso. Eu não vou criticar a Claro porque eu não tenho Claro e nem sei como funciona. Eu tinha Tim então eu sabia que a minha vida era um inferno com a Tim. Eu tomo Coca zero e odeio a NET, ambos que eu já sabia como funcionavam. É a brincadeira com aquilo que eu uso e não uma crítica assim: “Ah esse produto é uma merda!” Não, não é isso... É brincando com o serviço, com que acontece por trás do produto e não pegando a marca e 'escrotizando' ela. É o serviço que é oferecido por trás da marca e mostrando deficiências por trás disso, coisas que todo mundo também reclama. Se não o vídeo do ‘Estaremos fazendo o cancelamento’ não tinha 8 milhões de visualizações, entendeu?

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TLA: Tocar em assuntos sensíveis é algo que pode ser alvo de críticas? Qual é o limite do humor?

Porchat: Com certeza tocar em assuntos sensíveis vai virar alvo de críticas porque é impossível agradar todo mundo. Falar de religião, de racismo ou alguma coisa nesse sentido é delicado. As pessoas ficam meio: "Que lugar é esse?". Nós fizemos alguns vídeos brincando com a Bíblia, com a Ku Klux Klan, com o racismo do Saci, com Moisés, Noé e não tivemos problemas com nenhum. Eu acho que é difícil dizer qual é o limite porque não existe um limite no humor. Acredito que existe um humor e existe para qual público você está falando. Se for uma plateia só de judeus e eu fizer uma piada de judeus talvez eles não achem graça. Se eu tiver em uma plateia só com gordos e fizer piada sobre gordos, eles também não vão achar graça. Nós temos que entender para quem estamos fazendo essa piada. Se é em TV aberta, na internet, TV fechada ou cinema, tudo isso varia e modifica. Porém acho que podemos fazer piada com tudo e que tudo é sujeito a piada. É bom quando podemos fazer uma piada com racismo, de poder rir de uma coisa e aprender com aquilo, poder ver e perceber até onde o meu lado preconceituoso está indo. É legal você poder pegar um assunto e brincar em cima dele. Nós no Porta Dos Fundos somos cinco cabeças pensantes em uma reunião de roteiro, acho difícil um assunto ou algum texto que seja muito agressivo passar desapercebido por cinco pessoas. Talvez seja esse o nosso segredo de nunca termos nenhum problema, porque são cinco pessoas que opinam. Só aprovamos um texto quando quatro pessoas querem, quando é quatro contra um ainda aprovamos. Se é três contra dois o texto não é aprovado porque tem alguma coisa que não está batendo para duas pessoas. Mas não é assim: “Puts as pessoas vão se ofender”.  É não está engraçado. Está engraçado? Tá, então vamos fazer. Se não estiver engraçado pode ser pedofilia ou um casal que se amam que não iremos fazer.

TLA: Falando um pouco de cinema, a aceitação do próprio brasileiro com o cinema nacional é complicada. Você que participa desse mercado cinematográfico o que você achou?  Acha que teve alguma mudança? O que achou da recente experiência no filme Vai que dá certo?

Porchat: Eu adoro fazer cinema. Eu já fiz alguns filmes, lancei dois e vou lançar mais dois esse ano e mais um ano que vem. Enfim, é muito legal cinema e eu acho que a comédia está fazendo uma coisa que é transformar filme nacional em filme. Está começando a descatalogar essa coisa de comédia romance filme nacional. Agora as comédias são postas em comédias, o Ben Affleck, o Adam Sandler e o Bruno Mazzeo ocupam o mesmo lugar na minha prateleira. As comédias estão fazendo isso com os filmes. No Brasil existe muito preconceito com o filme nacional porque as pessoas acham muito ruim, não sei se é por ser dublado, eu não sei dizer exatamente porque acontece isso, os filmes são ótimos. Claro que tem filmes horríveis mas tem péssimos filmes americanos também. Filme brasileiro você vai assistir e fala: “que merda, nunca mais vou ver um filme nacional”. Filme americano você fala: “que merda, vamos voltar semana que vem?”, tem um certo encantamento que perdoa os caras lá e aqui quer tem que ser o melhor do mundo. Eu estava reassistindo outro dia Se Beber Não Case que é ótimo e eu adorei. Porém, reassistindo comecei a perceber que é um pouco longo. Mas não é por isso que eu vou desistir de ver comédias americanas para sempre. Eu adorei o filme, tem algumas questões e é a mesma coisa que ocorre com os daqui. Se você vai assistir um filme como o Se Eu Fosse Você que tem questões e coisas que eu não gostei tanto, mas achei o filme super legal. Porém o brasileiro cobra muito. Eu fui ver o Divã no cinema e tem uma cena que a Lilian Cabral chega no hospital para visitar a Alexandra Richter e para e acha uma vaga na frente do hospital. O cinema parou e fez assim: “Ah tá! Achou uma vaga...” Nos Estados Unidos o cara mata um monstro e ninguém fala nada, aqui a mulher achou uma vaga e o cinema descreditou o filme. Tem um pouco isso mas acho que está mudando, que a cultura de cinema nacional está modificando as pessoas.

TLA: Você citou alguns humoristas brasileiros que você gosta e você está em um patamar talvez igual ou maior que eles. Você tem a noção de refletir em outros humoristas talvez fora do Brasil?  

Porchat: Lá fora não. O que eu sei é que brasileiros lá fora assistem muito Porta Dos Fundos porque temos os dados. Eu viajei agora e as pessoas vem falar comigo, eu estava na em Veneza e um cara falou: “Pai, pai olha aquele menino dos vídeos que a gente estava vendo no trem!” Então é uma coisa mundial realmente, a pessoa pode estar em qualquer país e baixar o nosso aplicativo. Mas tirando os portugueses que vieram falar conosco e até me chamaram para participar de um festival de humor em Portugal, eu acho que o resto do mundo nem sabem que nós existimos. Embora na semana passada onde nós nos tornamos o maior canal de humor do mundo. Por mês nós temos 50 milhões de visualizações e não sei quanto milhões de inscritos. Vira uma coisa muito louca. Nesse sentido eu acho que é forte, o Google internacional e o Youtube internacional sabem quem nós somos. Agora os comediantes lá fora eu não sei, não faço a menor ideia. Eu sei que eu me inspiro muito nos ingleses como o Richard Briers, Monty Python e Eddie Izzard que são comediantes que eu gosto e assisto muito. O humor inglês é muito ácido ele é do escrotão. Eu acho o Monty Python que são os deuses eternos e duram até hoje... O humor envelhece, daqui a cinco anos você vai ver e falar: “Nossa eu ria disso, que loucura!” O Monty Python tem 40 anos e se você assiste você fala: “Que gente doida! Como é que eles fazem isso?” Ainda é doido e para ser doido é porque a gente ainda não chegou lá neles.